ENFERMAGE, CIÊNCIAS E SAÚDE

Gerson de Souza Santos - Bacharel em Enfermagem, Especialista em Saúde da Família, Mestrado em Enfermagem , Doutor em Ciências da Saúde - Escola Paulista de Enfermagem - Universidade Federal de São Paulo.

http://pt.slideshare.net/gersonsouza2016

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Distúrbios Somatoformes


Os distúrbios somatoformes abrangem vários distúrbios psiquiátricos nos quais os pacientes referem sintomas físicos, mas negam apresentar problemas psiquiátricos. Distúrbio somatoforme é um termo relativamente novo, que é aplicado para o que muitos denominam distúrbio psicossomático. Nos distúrbios somatoformes, os sintomas físicos, ou a sua gravidade e duração, não podem ser explicados por qualquer doença física subjacente. Os distúrbios somatoformes incluem a somatização, a conversão e a hipocondria. Os psiquiatras diferem consideravelmente no que diz respeito ao valor e à validade do uso dessas categorias diagnósticas. Entretanto, essa distinção dos diferentes distúrbios somatoformes proprocionou aos psiquiatras um meio para descrever a ampla variedade de sintomas apresentados por esses pacientes e para diferenciar os distúrbios baseando-se nessas descrições. As descrições minuciosas podem ajudar os psiquiatras a ordenar os diferentes distúrbios que podem ser melhor estudados cientificamente. Os distúrbios somatoformes geralmente não possuem uma explicação clara. Os pacientes com um distúrbio somatoforme podem ser muito diferentes entre si. Como não existe uma explicação clara de como ou por que os indivíduos desenvolvem seus sintomas, não existem modos de tratamento específicos e aceitos consensualmente.

Somatização

A somatização é uma doença crônica grave caracterizada pela presença de muitos sintomas físicos, particularmente uma combinação de dor e sintomas gastrointestinais, sexuais e neurológicos. As causas da somatização não são conhecidas. Ela freqüentemente ocorre em famílias. Os indivíduos com o distúrbio também tendem a apresentar distúrbios da personalidade caracterizados pelo egocentrismo (personalidade narcisista) e uma dependência exagerada de outras pessoas (personalidade dependente). Os primeiros sintomas surgem na adolescência ou no início da vida adulta e acredita-se que eles ocorram predominantemente em mulheres. Os familiares do sexo masculino de mulheres com esse distúrbio tendem a apresentar uma incidência elevada de comportamento social inadequado e de alcoolismo.

Sintomas

Um indivíduo com somatização apresenta muitas queixas físicas vagas. Embora qualquer parte do corpo possa estar afetada, os sintomas mais freqüentes são cefaléia, náusea e vômito, dor abdominal, diarréia ou constipação, períodos menstruais dolorosos, fadiga, desmaios, dor durante o intercurso sexual e perda do desejo sexual. Embora os sintomas sejam principalmente físicos, também podem ocorrer a ansiedade e a depressão. Os indivíduos com somatização descrevem os seus sintomas de forma dramática e emotiva, referindo-se a eles freqüentemente como “insuportáveis”, “indescritíveis” ou “o pior imaginável”. Nas relações dos indivíduos com somatização, emerge uma dependência extrema. Eles solicitam cada vez mais ajuda e suporte emocional e podem tornar-se enraivecidas quando sentem que suas necessidades não estão sendo supridas. Freqüentemente, eles são descritos como exibicionistas e sedutores. Em uma tentativa de manipular os outros, eles podem ameaçar ou tentar o suicídio. Comumente insatisfeitos com os cuidados médicos que recebem, eles mudam constantemente de médico. Os sintomas físicos parecem ser uma maneira de transmitir um pedido de ajuda e de atenção. A intensidade e a persistência dos sintomas refletem o desejo intenso do indivíduo de ser atendido em cada um dos aspectos de sua vida. Esses sintomas também parecem servir a outros propósitos como, por exemplo, permitir que o indivíduo evite as responsabilidades da vida adulta. Os sintomas tendem a ser desconfortáveis e impedem que o indivíduo se envolva em projetos atrativos, sugerindo que o indivíduo também apresenta sentimentos de invalidez e de culpabilidade. Os sintomas impedem que ele tenha prazer e também atuam como uma punição.

Diagnóstico

Os indivíduos com somatização não têm consciência de que o seu problema básico é psicológico e, por essa razão, eles pressionam o médico a realizar exames e tratamentos médicos. O médico é obrigado a realizar muitos exames e investigações clínicas para determinar se o indivíduo apresenta um distúrbio físico que explique adequadamente os seus sintomas. Os encaminhamentos a especialistas para consultas são comuns, mesmo quando o indivíduo já estabeleceu uma relação razoavelmente satisfatória com um médico. Após o médico haver definido que se trata de um distúrbio psicológico, a somatização pode ser diferenciada dos distúrbios psiquiátricos similares pelos seus muitos sintomas e pela tendência dos mesmos persistirem por anos. Ao diagnóstico adiciona-se a natureza dramática das queixas e um comportamento exibicionista, dependente, manipulador e, algumas vezes, suicida do paciente.

Prognóstico e Tratamento

A somatização tende a oscilar em termos de gravidade, mas ela persiste por toda a vida. A obtenção de um alívio completo dos sintomas durante um longo período de tempo é rara. Alguns indivíduos apresentam uma depressão mais evidente no decorrer dos anos e suas referências ao suicídio tornam-se mais ameaçadoras. O suicídio é um risco real. O tratamento é extremamente difícil. Qualquer sugestão de que os sintomas são psicológicos tende a produzir sentimentos de frustração e de raiva nesses indivíduos. Conseqüentemente, o médico não pode abordar o problema diretamente como se fosse psicológico, mesmo quando ele o reconhece como tal. Os medicamentos não são muito úteis e, mesmo quando o indivíduo aceita uma consulta psiquiátrica, as técnicas psicoterápicas específicas apresentam poucas possibilidades de êxito. Geralmente, o melhor tratamento é uma relação terapeuta-paciente de apoio, relaxada e firme que provê alívio sintomático e protege o indivíduo de procedimentos diagnósticos ou terapêuticos muito caros e possivelmente perigosos. Entretanto, o profissional deve permanecer alerta frente à possibilidade de o indivíduo desenvolver uma doença física.

Síndrome de Munchausen: Fingir Doença para Chamar Atenção


A síndrome de Munchausen, também denominada simulação, não é um distúrbio somatoforme, mas as suas características são algo similares aos dos distúrbios psiquiátricos sob a aparência de uma doença orgânica. A diferença fundamental é que os indivíduos com a síndrome de Munchausen simulam conscientemente os sintomas de uma doença. Eles inventam repetidamente doenças e freqüentemente vão de hospital em hospital em busca de tratamento. Contudo, a síndrome de Munchausen é mais complexa que a simples e desonesta invenção e simulação de sintomas. Ela está associada a problemas emocionais graves. Os indivíduos com esse distúrbio geralmente são bem inteligentes e cheios de recursos. Eles não somente sabem como simular doenças, mas também possuem um conhecimento sofisticado das práticas médicas. Eles são capazes de manipular seus cuidados para serem hospitalizados e submetidos a uma enorme quantidade de exames e tratamentos, incluindo cirurgias de grande porte. Suas fraudes são conscientes, mas a sua motivação e busca por atenção são em grande parte inconscientes. Uma variante curiosa da síndrome é denominada Munchausen por substituto. Nesse distúrbio, uma criança é utilizada como paciente passivo, geralmente por um dos genitores. O genitor falsifica a história médica da criança e pode causar-lhe danos com medicamentos ou adicionando sangue ou contaminantes bacterianos em amostras de urina, orientando todo o seu esforço para simular uma doença. A motivação subjacente a esse comportamento tão estranho parece ser uma necessidade patológica de atenção e de manter uma relação intensa com a criança.

Conversão

Na conversão, os sintomas físicos causados por conflitos psicológicos assemelham-se aos de um distúrbio neurológico ou de outras condições médicas. Os sintomas da conversão são claramente causados pelo estresse e pelos conflitos psicológicos, que os indivíduos convertem inconscientemente em sintomas físicos. Embora os distúrbios da conversão tendam a ocorrer durante a adolescência ou no início da vida adulta, eles podem ocorrer pela primeira vez em qualquer idade. De modo geral, acredita-se que se trate de um distúrbio um pouco mais comum em mulheres que em homens.

Sintomas e Diagnóstico

Por definição, os sintomas da conversão são limitados àqueles que sugerem uma disfunção do sistema nervoso (geralmente a paralisia de um membro superior ou inferior ou a perda de sensibilidade de uma parte do corpo). Outros sintomas incluem as convulsões simuladas e a perda de um dos sentidos (p.ex., audição ou visão). Geralmente, o início dos sintomas está relacionado a algum acontecimento social angustiante ou psicologicamente estressante. O indivíduo pode apresentar apenas um episódio isolado ou episódios esporádicos, os quais são geralmente de curta duração. Quando os indivíduos com sintomas de conversão são hospitalizados, eles geralmente apresentam uma melhoria em duas semanas. No entanto, 20% a 25% deles apresentam recaídas ao longo de um ano. No início, o diagnóstico tende a ser difícil porque o indivíduo acredita que os sintomas são decorrentes de um problema físico e não deseja ser examinado por um psiquiatra. O médico assegura- se cuidadosamente de que os sintomas não possuem uma causa física.

Tratamento

Para o tratamento, é essencial que exista uma relação de confiança entre o médico e seu paciente. Quando o médico avalia um possível distúrbio físico e tranqüiliza o paciente dizendo que os sintomas não indicam uma doença subjacente grave, ele comumente começa a sentirse melhor e os sintomas desaparecem. Quando uma situação psicologicamente estressante precede o surgimento dos sintomas, a psicoterapia pode ser particularmente eficaz. Algumas vezes, os sintomas de conversão retornam com freqüência, chegando mesmo a tornar-se crônicos. Vários métodos de tratamento foram tentados (alguns podendo ser úteis), apesar de nenhum deles ter produzido um resultado uniformemente eficaz. Um do métodos mais utilizados é a hipnoterapia: o paciente é hipnotizado e os aspectos psicológicos supostamente responsáveis pelos sintomas são identificados e discutidos. A discussão continua após a hipnose, quando o indivíduo encontra-se totalmente alerta. Outros métodos incluem a narcoanálise, um procedimento semelhante à hipnose, mas que prevê a administração de um sedativo para a indução de um estado de semiadormecimento. A terapia de modificação do comportamento, incluindo o relaxamento, também revelou ser eficaz para alguns indivíduos.

Hipocondria

A hipocondria é um distúrbio psiquiátrico no qual o indivíduo refere sintomas físicos e mostra-se particularmente preocupado por acreditar firmemente que eles representam uma doença grave.

Sintomas e Diagnóstico

As preocupações do invíduo pela gravidade da doença baseiam-se freqüentemente em uma interpretação incorreta das funções normais do organismo. Por exemplo, os ruídos intestinais e, algumas vezes, a flatulência e o desconforto que ocorrem à medida que os líquidos avançam através do tubo digestivo são normais. Os hipocondríacos usam esses “sintomas” para explicar a sua crença de que eles estão com uma doença grave. O fato de serem examinados e tranqülizados pelo médico não diminui suas preocupações. Eles tendem a crer que, por alguma razão, o médico não conseguiu encontrar a doença subjacente. O médico suspeita de hipocondria quando um indivíduo saudável e com sintomas pouco importantes demonstra preocupação sobre o seu significado e não reage frente às explicações do médico após uma avaliação minuciosa. O diagnóstico é confirmado quando a condição persiste durante anos e os sintomas não podem ser atribuídos à depressão ou a um outro distúrbio psiquiátrico.

Tratamento

O tratamento é difícil, pois o hipocondríaco está convencido de que algo em seu organismo encontra- se gravemente alterado. A tranqüilização não reduz essas preocupações. Entretanto, uma relação de confiança com um médico atencioso é benéfica, sobretudo se as visitas regulares ao seu consultório forem acompanhadas por uma atitude tranqüilizadora. Se os sintomas não forem adequadamente aliviados, o indivíduo pode ser beneficiado pelo encaminhamento a um psiquiatra para uma nova avaliação e tratamento, concomitantemente com o atendimento médico primário.