ENFERMAGE, CIÊNCIAS E SAÚDE

Gerson de Souza Santos - Bacharel em Enfermagem, Especialista em Saúde da Família, Mestrado em Enfermagem , Doutor em Ciências da Saúde - Escola Paulista de Enfermagem - Universidade Federal de São Paulo.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Síndromes da Neoplasia Endócrina Múltipla


As neoplasias endócrinas múltiplas são doenças hereditárias raras nas quais ocorre o desenvolvimento de tumores benignos ou malignos (cancerosos) em várias glândulas endócrinas. Os tumores das neoplasias endócrinas múltiplas podem aparecer precocemente, na infância, ou tardiamente, em torno dos 70 anos de idade. As alterações causadas pelas neoplasias endócrinas múltiplas são decorrentes sobretudo do excesso de hormônios produzidos pelos tumores. As neoplasias endócrinas múltiplas ocorrem em três padrões, denominados tipos I, IIA e IIB, embora, ocasionalmente, ocorra a sobreposição de tipos.

Doença Tipo I

Os indivíduos com síndrome das neoplasia endócrina múltipla tipo I apresentam tumores de paratireóides (as pequenas glândulas localizadas junto à glândula tireóide), de pâncreas, de hipófise ou de todas essas glândulas. Quase todos os indivíduos com esta doença apresentam tumores de paratireóides. Estes fazem com que as glândulas produzam hormônio paratireoidiano (paratormônio) em excesso (uma condição denominada hiperparatireoidismo). O excesso de hormônio paratireoidiano comumente eleva a concentração sérica de cálcio, causando algumas vezes a formação de cálculos renais. A maioria dos indivíduos com doença tipo I também apresentam tumores de células das ilhotas pancreáticas. Aproximadamente 40% desses tumores produzem concentrações altas de insulina e, conseqüentemente, concentrações séricas baixas de glicose (hipoglicemia), especialmente se o indivíduo não se alimentar durante várias horas.

Mais da metade dos tumores de células das ilhotas pancreáticas produzem um excesso de gastrina, a qual estimula o estômago a produzir ácido. Os indivíduos com esses tumores geralmente desenvolvem úlceras pépticas que comumente sangram, perfuram e extravasam o conteúdo gástrico para o interior da cavidade abdominal ou obstruem o estômago. É comum o indivíduo apresentar diarréia e esteatorréia (fezes gordurosas e fétidas). Os demais tumores de células das ilhotas pancreáticas podem produzir outros hormônios como, por exemplo, o polipeptídeo intestinal vasoativo, o qual pode causar diarréia grave e levar à desidratação. Em aproximadamente um terço dos casos, os tumores de células das ilhotas pancreáticas são cancerosos e, algumas vezes, disseminam-se (produzem metástases) para outras áreas do corpo.

Contudo, esses cânceres tendem a crescer mais lentamente que outros tipos de câncer pancreático. Aproximadamente dois terços dos indivíduos com doença tipo I apresenta tumores hipofisários. Cerca de 25% desses tumores produzem o hormônio prolactina, o qual acarreta alterações menstruais nas mulheres e impotência nos homens. Outros 25% produzem o hormônio do crescimento, acarretando a acromegalia. Uma porcentagem muito pequena dos tumores hipofisários produz corticotropina, acarretando uma concentração elevada dos hormônios corticosteróides e a síndrome de Cushing. Aproximadamente 25% parecem não produzir qualquer hormônio. Alguns tumores hipofisários causam cefaléias (dores de cabeça), comprometimento da visão e redução da função hipofisária. Alguns indivíduos com a doença tipo I apresentam tumores de tireóide e de adrenais. Uma porcentagem muito pequena desenvolve tumores carcinóides. Alguns indivíduos também apresentam tumores gordurosos, de consistência macia e não cancerosos logo abaixo da pele (lipomas).

Doença Tipo IIA

As neoplasias endócrinas múltiplas do tipo IIA podem consistir em um tipo raro de câncer de tireóide (carcinoma medular), em um feocromocitoma (um tipo de tumor adrenal que geralmente não é canceroso e na hiperatividade das paratireóides. Quase todos os indivíduos com a doença tipo IIA apresentam um câncer medular da tireóide. Aproximadamente 50% deles apresentam um feocromocitoma, o qual normalmente aumenta a pressão arterial em decorrência da adrenalina e de outras substâncias produzidas por este tipo de tumor. A hipertensão arterial pode ser intermitente ou constante e é freqüentemente muito grave. Aproximadamente 25% dos indivíduos com a doença tipo IIA apresentam paratireóides hiperativas e sintomas da concentração sérica alta de cálcio, a qual pode acarretar a formação de cálculos renais e, algumas vezes, a insuficiência renal. Em outros 25%, as paratireóides aumentam de tamanho sem que sejam produzidas grandes quantidades de hormônio paratireoidiano e, conseqüentemente, os indivíduos não apresentam problemas relacionados à concentração elevada de cálcio.

Tumores das Neoplasias Endócrinas Múltiplas




Porcentagem de Indivíduos Com a Doença
Afetados Por Este Tipo de Tumor

Tumor
Doença
Tipo I

Doença
Tipo II

Doença
Tipo IIB
Tumores não cancerosos das paratireóides
90% ou
mais

25%

Menos de
1%
Tumores cancerosos ou não cancerosos do pâncreas
80%

0%

0%
Tumores não cancerosos da hipófise
65%

0%

0%
Tumores cancerosos (carcinomas medulares) da tireóide
0%

Mais
de 90%

Mais de
90%
Tumores (habitualmente não cancerosos) das adrenais (feocromocitomas)
0%

50%

60%
Tumores em torno dos nervos (neuromas)
0%

0%

100%

Doença Tipo IIB

As neoplasias endócrinas múltiplas do tipo IIB podem consistir em um câncer medular da tireóide, em um feocromocitoma e em neuromas (tumores em torno dos nervos). Alguns indivíduos com a doença tipo IIB não apresentam história familiar deste distúrbio. O câncer medular da tireóide que ocorre na doença tipo IIB tende a se desenvolver precocemente e foi descrito em crianças com até 3 meses de idade. Os cânceres medulares da tireóide da doença tipo IIB também crescem mais rapidamente e disseminam com maior velocidade que os da doença tipo IIA. Quase todos os indivíduos com doença tipo IIB apresentam neuromas nas membranas mucosass.

Os neuromas surgem como proeminências brilhantes em torno dos lábios, da língua e no revestimento interno da boca. Eles também podem ocorrer nas pálpebras e nas superfícies brilhanes dos olhos (p.ex., conjuntiva e córnea). As pálpebras e os lábios podem engrossar. As alterações do trato gastrointestinal causam constipação e diarréia. Ocasionalmente, o cólon apresenta dilatação acentuada das alças (megacólon). É provável que essas alterações sejam decorrentes de neuromas que cresceram sobre os nervos intestinais. Os indivíduos com a doença tipo IIB freqüentemente apresentam alterações vertebrais, especialmente acentuação da curvatura da coluna vertebral, assim como alterações ósseas dos pés e dos fêmures. Muitos indivíduos apresentam membros longos e frouxidão articular (hábito marfanóide, assim denominado porque a aparência é semelhante à da síndrome de Marfan).

Tratamento

Não existe uma cura conhecida para qualquer das neoplasias endócrinas múltiplas. Os médicos tratam cada tumor de forma individual, seja através de sua remoção ou através da correção do desequilíbrio hormonal. Como o câncer medular da tireóide, quando não tratado, é em última instância letal, o médico muito provavelmente recomendará a remoção cirúrgica da tireóide quando um indivíduo com a doença tipo IIA apresenta um feocromocitoma ou um hiperparatireoidismo, mesmo se o diagnóstico de câncer medular da tireóide não puder ser estabelecido antes da cirurgia. Na doença tipo IIB, o câncer medular da tireóide é particularmente agressivo. O médico recomenda a remoção da tireóide assim que o diagnóstico for estabelecido. Este tipo de câncer de tireóide não pode ser tratado com iodo radioativo.

Detecção

Como aproximadamente metade dos filhos de indivíduos com neoplasias endócrinas múltiplas herdam a doença, é importante que seja feita a investigação para o diagnóstico e o tratamento precoces. Atualmente, existem exames disponíveis para cada tipo de tumor. Recentemente, foram identificados os genes anormais responsáveis pela doença tipo IIA e IIB. No futuro, existirão exames disponíveis para detectar o gene anormal, permitindo um diagnóstico e um tratamento mais precoces e eficazes.