ENFERMAGE, CIÊNCIAS E SAÚDE

Gerson de Souza Santos - Bacharel em Enfermagem, Especialista em Saúde da Família, Mestrado em Enfermagem , Doutor em Ciências da Saúde - Escola Paulista de Enfermagem - Universidade Federal de São Paulo.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Emergências Gastrointestinais


Determinados distúrbios gastrointestinais muitas vezes podem ser letais e exigem um tratamento de emergência. Em alguns casos, o tratamento é cirúrgico. Esses distúrbios incluem a hemorragia gastrointestinal, a obstrução mecânica do trato digestivo, o íleo paralítico (interrupção temporária dos movimentos contráteis do trato digestivo), a apendicite (inflamação do apêndice) e a peritonite (inflamação do revestimento da cavidade abdominal).

Hemorragia gastrointestinal

A hemorragia pode ocorrer em qualquer ponto do trato digestivo (gastrointestinal), da boca ao ânus. Ela pode manifestarse como a presença de sangue nas fezes ou no vômito, ou pode ser oculta, apenas detectada por meio de exames. A hemorragia em qualquer parte do trato digestivo pode ser agravada se o indivíduo apresentar também um distúrbio da coagulação.

Sintomas

Os sintomas possíveis incluem a hematêmese (vômito de sangue), a melena (fezes pretas negras, semelhantes ao alcatrão) e a hematoquezia (eliminação de sangue visível através do reto). A melena comumente é devida a uma hemorragia digestiva alta (p. Ex., do estômago ou do duodeno). A coloração escura do vômito é devida à exposição do sangue ao suco gástrico e à digestão bacteriana por várias horas antes de ele ser eliminado do organismo. Aproximadamente 60 ml de sangue podem produzir melena.

Um episódio isolado de hemorragia intensa pode produzir fezes escuras durante uma semana. Portanto, a persistência da evacuação de fezes escuras não indica necessariamente um sangramento persistente. Os indivíduos com sangramento prolongado podem apresentar sintomas de anemia como, por exemplo, cansaço fácil, palidez incomum, dor torácica e sensação de desmaio. Nos indivíduos que não apresentam esses sintomas, o médico pode ser capaz de detectar uma queda anormal da pressão arterial na passagem da posição deitada para a posição sentada. Os sintomas que indicam uma perda de sangue grave incluem a freqüência de pulso acelerada, a hipotensão arterial e a redução do débito urinário. O indivíduo também pode apresentar mãos e pés frios e úmidos.

A redução do suprimento sangüíneo cerebral causada pela perda de sangue pode acarretar confusão mental, desorientação, sonolência e inclusive o choque. No caso de o indivíduo apresentar uma outra doença, os sintomas de uma perda sangüínea grave podem ser diferentes. Por exemplo, um indivíduo com uma doença coronariana grave pode apresentar subitamente um quadro de angina ou sintomas de um infarto do miocárdio. Em um indivíduo com uma hemorragia gastrointestinal grave, os sintomas de outras doenças (p. Ex., insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, doença pulmonar e insuficiência renal) podem piorar. Nos indivíduos com hepatopatias (doenças do fígado), o sangramento intestinal pode causar um acúmulo de toxinas, as quais, por sua vez, produzem sintomas como alterações da personalidade, da consciência e da capacidade mental (encefalopatia hepática).

Diagnóstico

Após uma perda sangüínea grave, o hematócrito (um tipo de exame de sangue) geralmente revela uma baixa concentração de eritrócitos (glóbulos vermelhos) no sangue. O conhecimento dos sintomas responsáveis por um episódio de hemorragia pode ser útil para o médico determinar a sua causa. A dor abdominal que é aliviada pelos alimentos ou por antiácidos sugere uma úlcera péptica. No entanto, as úlceras hemorrágicas freqüentemente são indolores.

Os medicamentos que podem lesar a mucosa gástrica (revestimento do estômago), como a aspirina, podem causar sangramento gástrico que manifestase por meio da presença de sangue nas fezes.Um indivíduo com uma hemorragia gastrointestinal que apresenta anorexia (perda de apetite) e perda de peso sem razão aparente deve ser submetido a uma investigação para se excluir a existência de um câncer. Para um indivíduo com dificuldade de deglutição, deve ser investigada a presença de um câncer ou de uma estenose do esôfago. Os vômitos e os vômitos secos intensos antes de uma hemorragia sugerem uma laceração do esôfago. No entanto, aproximadamente 50% dos indivíduos com esse tipo de lesão não vomitam previamente.

A constipação ou a diarréia concomitante com hemorragia ou a presença de sangue oculto nas fezes pode ser causada por um câncer ou um pólipo localizado na porção inferior do intestino, sobretudo quando se trata de alguém com mais de 45 anos de idade. A presença de sangue fresco na superfície das fezes pode ser decorrente de hemorróidas ou de um problema retal (p. Ex., câncer). O médico examina o paciente em busca de indícios que possam apontar para a origem do sangramento. Por exemplo, durante um exame retal, o médico verifica a presença de hemorróidas, lacerações retais (fissuras) e tumores.

Em seguida, os exames são escolhidos de acordo com a suspeita do médico em relação à origem do sangramento, se a origem é do trato digestivo superior (esôfago, estômago e duodeno), ou do trato digestivo inferior (parte inferior do intestino delgado, intestino grosso, reto e ânus). Normalmente, no caso de suspeita de distúrbios do trato digestivo superior, a primeira investigação consiste na realização de uma sondagem gástrica (passagem de uma sonda através do nariz até o estômago) para coleta de líquido. O líquido do estômago que se assemelha a borra de café é conseqüência da digestão parcial do sangue, indicando que o sangramento é lento ou que ele cessou.

O sangue vermelho vivo e brilhante e contínuo indica um sangramento ativo e vigoroso. A seguir, o médico freqüentemente realiza uma endoscopia digestiva alta (exame do esôfago, estômago e duodeno com o auxílio de um tubo de visualização flexível) para detectar a origem do sangramento. No caso de não ser detectada uma gastrite ou uma úlcera gástrica ou duodenal, ele pode realizar uma biópsia (coleta de amostra de tecido para exame microscópico. A biópspiia pode determinar se o sangramento é devido a uma infecção causada pelo Helicobacter pylori. Este tipo de infecção é tratado e, normalmente, é curado com a antibioticoterapia.

O médico também investiga a existência de pólipos e cânceres no trato gastrointestinal inferior através da realização de um enema baritado, ou de uma endoscopia. Ele pode visualizar diretamente o interior da parte inferior do intestino com o auxílio de um anoscópio, de um sigmoidoscópio flexível ou de um colonoscópio. Se essas investigações não revelarem a origem do sangramento, o médico solicita uma angiografia (radiografias realizadas após a injeção de uma substância radiopaca) ou uma cintilografia (após a injeção de eritrócitos radiomarcados). Essas técnicas são particularmente úteis para revelar se a causa do sangramento é uma malformação vascular.

Locais e Causas do Sangramento Gastrointestinal

Locais

Causas
Esôfago • Laceração tissular
• Sangramento de veias varicosas
• Câncer
Estômago • Úlcera cancerosa ou não cancerosa
• Irritação (gastrite), como a causada pela aspirina ou pelo Helicobacter pylori
Intestino delgado • Úlcera duodenal não cancerosa
• Tumor canceroso ou não canceroso
Intestino grosso • Câncer
• Pólipo não canceroso
• Doença inflamatória intestinal (doença de Crohn ou colite ulcerativa)
• Doença diverticular
• Vaso sangüíneo anormal na parede intestinal (angiodisplasia)
Reto • Câncer
• Tumor não canceroso
Ânus • Hemorróidas
• Laceração anal (fissura anal)

Tratamento

Em mais de 80% dos casos de sangramento gastrointestinal, as defesas do organismo interrompem o sangramento. Freqüentemente, os indivíduos que continuam a sangrar ou que apresentam sintomas de uma perda sangüínea importante são hospitalizados e, comumente, são internados em uma unidade de terapia intensiva. No caso de ter havido uma perda sangüínea importante, pode ser necessária a realização de transfusão sangüínea. Para evitar a sobrecarga de volume na circulação sangüínea, pode ser realizada a transfusão de concentrado de eritrócitos ao invés de sangue total.

Após a restauração do volume sangüíneo, o indivíduo é monitorizado atentamente, verificandose a ocorrência de sinais de persistência do sangramento (p. Ex., aumento da freqüência de pulso, queda da pressão arterial ou perda de sangue pela boca ou ânus). O sangramento de veias varicosas localizadas na porção inferior do esôfago (varizes esofágicas) pode ser tratado de várias maneiras. Um dos métodos consiste na passagem de um cateter com balão através da boca até o esôfago e na insuflação do balão para comprimir a área sangrante. Um outro método consiste na injeção de uma substância química irritante no vaso sangüíneo, que causa inflamação e cicatrização das veias.

O sangramento gástrico freqüentemente pode ser interrompido através de procedimentos endoscópicos. Eles incluem a cauterização do vaso sangrante com uma corrente elétrica e a injeção de um material que provoca a coagulação do sangue no interior dos vasos. Se esses procedimentos falharem, a cirurgia pode ser necessária. Normalmente, o sangramento da porção baixa do intestino não exige um tratamento de emergência. Contudo, quando necessário, é realizado um procedimento endoscópico ou uma cirurgia abdominal. Às vezes, a localização do sangramento não pode ser determinada comprecisão e, por essa razão, pode ser realizada a remoção de um segmento do intestino.

Hemorragia devida a malformações arteriovenosas

A hemorragia devida a malformações arteriovenosas são causadas por rupturas de vasos sangüíneos anormais que comunicam artérias a veias.Desconhecese o motivo pelo qual ocorrem malformações arteriovenosas no revestimento do estômago e do intestino. Contudo, essas malformações são mais comuns nos indivíduos que apresentam valvulopatias, doenças renais, doenças hepáticas, doenças do tecido conjuntivo e naqueles submetidos à radioterapia para o tratamento de câncer do intestino. O diâmetro desses vasos anormais varia desde o de um fio de pesca grosso até o de um dedo mínimo de um indivíduo adulto. Os vasos anormais são frágeis e propensos ao sangramento, às vezes intenso, especialmente em idosos.

Sintomas e Diagnóstico

As hemorragias decorrentes de malformações arteriovenosas do estômago e do intestino geralmente causam hematêmese (vômito de sangue) ou melena (eliminação de fezes pretas, semelhantes ao alcatrão). Quando o sangramento é abundante ou prolongado, o indivíduo pode apresentar anemia e outros sintomas de perda de sangue. Os episódios hemorrágicos geralmente começam de modo súbito e tendem a recorrer. Comumente, o diagnóstico é estabelecido com o auxílio da endoscopia. No entanto, as malformações arteriovenosas podem ser de difícil detecção, especialmente quando o baixo volume sangüíneo ou o baixo débito cardíaco faz com que os vasos sangüíneos colapsem parcialmente.

Tratamento

O tratamento de um distúrbio subjacente (p. Ex., cirurgia de uma válvula cardíaca ou transplante renal) pode eliminar a hemorragia gastrointestinal. O médico pode conseguir interromper o sangramento por meio da cauterização do vaso sangüíneo, com o auxílio de um endoscópio, mas novas malformações podem ocorrer. A anemia causada pela perda de sangue pode ser corrigida com a administração de suplementos de ferro.

Dor abdominal

A dor abdominal pode ser causada por problemas localizados ao longo do trato digestivo ou em qualquer outro local do abdômen. Esses problemas incluem a ruptura do esôfago, a úlcera perfurada, a síndrome do cólon irritável, a apendicite, a pancreatite e a litíase biliar (cálculos biliares). Alguns desses distúrbios são relativamente pouco importantes, enquanto outros são potencialmente letais. O médico deve decidir a necessidade de instituição de um tratamento imediato ou se o tratamento pode ser postergado até que os resultados dos exames diagnósticos estejam disponíveis.

Diagnóstico e tratamento

A natureza da dor e o momento em que ela ocorre (em relação à ingestão de alimentos ou à movimentação em geral) podem prover pistas para o estabelecimento do diagnóstico. Caso algum outro membro da família apresente antecedentes de algum distúrbio abdominal (p. Ex., litíase biliar), o paciente pode apresentar o mesmo distúrbio. O aspecto geral do indivíduo pode fornecer dados importantes. Por exemplo, a icterícia (coloração amarelada da pele e das escleras) sugere uma doença hepática, da vesícula biliar ou das vias biliares.

O médico examina o abdômen, palpandoo e verificando a presença de dor à palpação ou de qualquer massa abdominal. Quando a parede do abdômen é delicadamente pressionada, o indivíduo sente dor, e quando a pressão é liberada abruptamente, a dor pode tornarse subitamente pior (manobra conhecida como sinal de descompressão positivo ou sensibilidade de rebote).

Normalmente, esse sinal indica peritonite (inflamação do revestimento da cavidade abdominal). Os exames diagnósticos para a investigação de uma dor abdominal incluem exames de sangue e de urina, radiografias, ultrasonografia e a tomografia computadorizada (TC). Freqüentemente, é realizada uma cirurgia exploradora de emergência quando a dor abdominal parece ser resultante de uma obstrução intestinal, uma perfuração ou de ruptura de um órgão (p. Ex., vesícula biliar, apêndice ou intestino) ou de um abcesso (acúmulo de pus).

Quando a dor abdominal exige cirurgia

Órgão de Origem da Dor
Condições Que Exigem Cirurgia Imediata
Condições Que Não Exigem Cirurgia Imediata
Esôfago Perfuração ou ruptura Refluxo gastroesfofágico e esofagite
Estômago Úlcera perfurada ou com sangramento, câncer de estômago Úlcera, gastrite, hérnia hiatal
Intestino delgado Úlcera perfurada, obstrução Úlcera não complicada, gastroenterite, doença de Crohn
Apêndice Apendicite
Intestino grosso e reto Diverticulite com perfuração ou obstrução, câncer, obstrução porpólipo, colite ulcerativa, doença de Crohn (grave) Doença de Crohn (leve), diverticulite não complicada
Fígado Câncer, abcesso Hematoma, cisto
Sistema biliar Cálculos biliares com inflamação ou obstrução da vesícula biliar Cálculos biliares sem inflamação ou obstrução
Baço Ruptura, abcesso
Pâncreas Pancreatite (grave) Pancreatite (leve)
Vasos sangüíneos Aneurisma arterial, obstrução
Rim Cálculos Infecção
Bexiga Cálculos, câncer Infecção
Genitália masculina Torção testicular Infecção prostática ou testicular
Genitália feminina Gravidez ectópica, abcesso do ovário Doença inflamatória pélvica
Peritôneo (revestimento da cavidade abdominal) Peritonite por perfuração Peritonite causada por tuberculose

Obstrução mecânica do intestino

A obstrução mecânica do intestino é a presença deum bloqueio que interrompe completamente ou compromete seriamente o trânsito do conteúdo intestinal. A obstrução pode ocorrer em qualquer segmento do intestino. A parte acima da obstrução continua funcionando. À medida que o intestino vai se enchendo de alimento, líquidos, secreções digestivas e gás, ele dilata progressivamente, como uma mangueira macia. Em recém nascidos e lactentes, a obstrução intestinal é comumente causada por um defeito congênito, por uma massa endurecida de conteúdo intestinal (mecônio) ou por uma torção do próprio intestino (volvo).

Em adultos, uma obstrução duodenal pode ser causada por um câncer do pâncreas, por cicatrizes (de uma úlcera, de uma cirurgia prévia ou da doença de Crohn) ou por aderências, nas quais uma faixa fibrosa de tecido conjuntivo encarcera o intestino. Além disso, pode ocorrer uma obstrução quando uma parte do intestino dilata por meio de uma abertura anormal (hérnia), como uma área enfraquecida da musculatura abdominal, e tornase encarcerada. Raramente, a obstrução é causada por um cálculobiliar, uma massa de alimento não digerido ou um bolo de vermes.

O câncer é uma causa comum de obstrução do intestino grosso. Uma torção de alça intestinal ou o acúmulo de fezes endurecidas (impactação fecal) também podem causar obstrução. Quando uma obstrução interrompe o suprimento sangüíneo ao intestino, a condição é denominada estrangulamento. O estrangulamento ocorrem em aproximadamente 25% dos casos de obstrução do intestino delgado. Normalmente, ela é devida ao encarceramento de uma partedo intestino em uma abertura anormal (hérniaestrangulada), à torção de uma alça intestinal (volvo) ou à penetração de uma alça intestinal no interior de uma outra (intussuscepção).

A gangrena pode ocorrer rapidamente, mesmo em um prazo de 6 horas. Na gangrena, ocorre a morteda parede intestinal, normalmente com perfuração, que acarreta uma peritonite (inflamação do revestimento da cavidade abdominal) e infecção. Quando não tratado, o indivíduo pode morrer. Mesmo sem estrangulamento, o segmento do intestino acima do bloqueio dilata. O revestimento intestinal edemacia e inflama. Se oquadro não for tratado, o intestino pode perfurar, permitindo o extravasamento do seu conteúdo e acarretando inflamação e infecção da cavidade abdominal.

Sintomas e Diagnóstico

Os sintomas da obstrução intestinal incluem a dor abdominal tipo cólica, acompanhada por distensão abdominal. A dor pode tornar se intensa e constante. Em comparação com a obstrução do intestino delgado, o vômito, um sintoma comum, ocorre mais tarde na obstrução do intestino grosso. A obstrução completa provoca uma constipação grave, enquanto que a obstrução parcial pode causar diarréia. A febre é comum e pode ocorrer sobre tudo quando ocorre uma perfuração da parede intestinal. A perfuração pode levar rapidamente à inflamação e à infecção graves, causando o choque.

O médico realiza um exame do abdômen, verificando a presença de sensibilidade à palpação, inchaços e massas anormais. Os ruídos normais produzi dos por um intestino funcionante (ruídosintestinais), que podem ser ouvidos com o auxílio de um estetoscópio, podem ser muito altos e agudos ou podem estar ausentes. Se ocorrer uma peritonite em decorrência de uma perfuração, o indivíduo sentirá dor quando o médico palpar profundamente o seu abdômen. A dor aumenta quando o médico libera a pressão abruptamente (sinal da descompressão positivo ou sensibilidade de rebote). As radiografias podem mostrar alças intestinais dilatadas que indicam a localização da obstrução. Além disso, elas podem mostrar a presença de ar em torno do intestino no abdômen, um sinal de perfuração.

Tratamento

Qualquer indivíduo com suspeita de obstrução intestinal é hospitalizado. Normalmente, é realizada a passagem de uma sonda nasogástrica (do nariz ao estômago) ou nasoentérica (do nariz ao intestino). Em seguida, é realizada a aspiração por meio da sonda para remover o material acumulado acima da obstrução. É feita aadministração intravenosa de líquido e de eletrólitos (sódio e potássio) para repor o sal e a água perdidos pelo vômito e pela diarréia.

Algumas vezes, uma obstrução sofre uma resolução espontânea, sem tratamento, especialmente quando ela é decorrente de aderências. Para tratar alguns distúrbios (p. Ex., torção de um segmento da porção baixa do intestino grosso), pode ser realizada a passagem de um endoscópio através do ânus ou um enema baritado, o qual produz uma insuflação do intestino e a resolução da obstrução em decorrência do aumento da pressão. No entanto, o mais habitual é a realização de uma cirurgia o mais breve possível. Durante a cirurgia, é realizada a remoção do segmento intestinal obstruído e a anastomose (conexão) das partes remanescentes.

Íleo paralítico

O íleo paralítico (íleo, íleo adinâmico) é um distúrbiono qual os movimentos contráteis normais da parede intestinal cessam temporariamente. Como a obstrução mecânica, o íleo para lítico impede a passagem do conteúdo intestinal. Ao contrário da obstrução mecânica, o íleo para líticora ramente acarreta perfuração. O íleo paralítico pode ser causado por uma infecção ou por um coágulo de sangue no interior do abdômen, pela aterosclerose que reduz o suprimento sangüíneo ao intestino ou por uma lesão de uma artéria ou veia intestinal.

Ele também pode ser causado por distúrbios extraintestinais como, por exemplo, a insuficiência renal ou concentrações anormais de eletrólitos no sangue (p. Ex., concentração baixa de potássio ou elevada de cálcio). Outras causas de íleo paralítico incluem determinados medicamentos eo hipotireoidismo (hipoatividade da tireóide). O íleo paralítico é comum nas primeiras 24 a 72 horas após uma cirurgia abdominal.

O que causa o estrangulamento intestinal

O estrangulamento (obstrução do suprimento sangüíneo ao intestino) usualmente é devido a uma das três causas mostradas a seguir.

Sintomas e diagnóstico

Os sintomas de íleo paralítico são a distensão abdominal, a constipação grave e as cólicas abdominais. Com o auxílio de um estetoscópio, o médico observa a presença de poucos ruídos intestinais ou ausência dos mesmos. A radiografiado abdômen revela a presença de alças intestinais dilatadas. Ocasionalmente, é realizada uma colonoscopia (exame do intestino como auxílio de um tubo de visualização) para avaliar a situação.

Tratamento

O objetivo do tratamento é aliviar o acúmulo degás e de líquido causado pelo íleo paralítico. Algumas vezes, é realizada a passagem de uma sonda através do ânus até o intestino grosso para reduzir a pressão. Além disso, é realizada a passagem de uma sonda na sogástrica ou na soentérica e, em seguida, é feita a aspiração para reduzir a pressão e a distensão. O indivíduo não deve ingerir sólidos ou líquidos até a crise passar. Líquidos e eletrólitos são administrados por via intravenosa.

Apendicite

A apendicite é inflamação do apêndice. O apêndice é uma pequena estrutura tubularem forma de dedo que se projeta do intestino grosso próximo do ponto onde este unese ao intestino delgado. O apêndice pode ter alguma função imune, mas não é um órgão essencial. Com exceção das hérnias encarceradas, a apendicite é a causa mais comum de dor abdominal súbita e intensa e de cirurgia abdominal nos Estados Unidos. A apendicite é mais comum entre os 10 e 30 anos de idade. A causa da apendicite não é totalmente compreendida. Na maioria dos casos, é provável que uma obstrução no interior do apêndice desencadeia um processo no qual ele tornase inflamado e infectado.

Se a inflamação persistir sem tratamento, o apêndice pode romper. Um apêndiceroto permite o extravasamento do conteúdo intestinal rico em bactérias para o interiorda cavidade abdominal, causando a peritonite, a qual pode acarretar uma infecção potencialmente letal. A ruptura também pode provocara formação de um abcesso. Na mulher, podem ocorrer infecção dos ovários e das tubas uterinase a conseqüente obstrução das tubas uterinas pode causar infertilidade. O apêndice roto tambémpode permitir que as bactérias invadam acorrente sangüínea e produzam uma septicemia, que também é potencialmente letal.

Sintomas

Menos de metade dos indivíduos com apendicite apresenta a combinação de sintomas característicos: náusea, vômito e dor intensa na fossa ilíaca direita (região abdominal inferior direita). A dorpode iniciar subitamente na região abdominal superiorou em torno da cicatriz umbilical. A seguir, o indivíduo apresenta náusea e vômito. Após algumas poucas horas, a náusea cessa e a dor localiza se na fossa ilíaca direita. Quando o médico pressiona essa área, ela dói, e quando a pressão é aliviada, a dor aumenta abruptamente (sinal da descompressão positivo ou sensibilidade de rebote). Uma febre de 37, 7 °C a 38, 3 °C é comum. A dor, particularmente em lactentes e crianças, pode ser generalizada e não restrita à fossa ilíaca direita. Em idosos e gestantes, a dor normalmente é menos intensa e a área é menos sensível. No caso de ruptura do apêndice, a dor e a febre podem tornar-se intensas. O agravamento da infecção pode levar ao choque.

Diagnóstico e Tratamento

O hemograma revela um aumento moderado dos leucócitos (glóbulos brancos) (leucometria) emresposta à infecção. Normalmente, nas fases iniciais da apendicite, a maioria dos exames (incluindoas radiografias, a ultrasonografia e a TC) não é útil. Comumente, o médico baseia o diagnóstico nos achados do exame físico. A cirurgia é imediatamente realizada para evitar a rupturado apêndice, a formação de um abcesso ou aperitonite (inflamação do revestimento da cavidade abdominal). Em aproximadamente 15% das cirurgias deapendicite, o apêndice encontra-se normal.

Contudo, postergar a sua realização até o médicoter certeza da causa da dor abdominal pode ser fatal. Um apêndice infectado pode romperem menos de 24 horas após o início dos sintomas. Mesmo quando a apendicite não é acausa do quadro apresentado pelo paciente, o apêndice é normalmente retirado. A seguir, o médico examina a cavidade abdominal e tentadeterminar a causa real da dor. Com a cirurgia precoce, a chance de óbitodevido a uma apendicite é muito pequena. O indivíduo comumente pode deixar o hospital em 2 a 3 dias e a sua recuperação é normalmente rápida e completa. No caso de um apêndice roto, o prognóstico é mais grave. Há cinqüenta anos, a ruptura era freqüentemente fatal. Os antibióticos reduzirama taxa de mortalidade para quase zero, mas, em certos casos, podem ser necessárias várias operações e uma longa convalescença.

Peritonite

A peritonite é a inflamação do peritôneo (revestimentoda cavidade abdominal) causada geralmente por uma infecção. O peritôneo é uma membrana delgada e transparente que reveste todos os órgãos abdominais eas paredes internas do abdômen. A peritonite normalmente é causada por uma infecção disseminadaa partir de um órgão abdominal infectado. As fontes comuns são as perfurações gástricas, intestinais, da vesícula biliar ou do apêndice. O peritôneo é altamente resistente às infecções.

A não ser que a contaminação continue, não ocorreo desenvolvimento da peritonite e o peritôneo tende a curar com o tratamento. A doença inflamatória pélvica em mulheres sexualmente ativas é uma causa comum de peritonite. Uma infecção do útero e das tubas uterinas (que pode ser causada por vários tipos de bactérias, como as que causam a blenorragia e as infecções por clamídia) disse minase para o interior da cavidade abdominal. Na insuficiência hepática ou cardíaca, pode ocorre o acúmulo de líquido na cavidade abdominal (ascite) e este pode tornarse infectado.

A peritonite pode ocorrer após uma cirurgia porvárias razões. Uma lesão da vesícula biliar, de um ureter, da bexiga ou do intestino durante uma cirurgia pode permitir o extravasamento de bactérias para o interior da cavidade abdominal. Esse extravasamento também pode ocorrer durante as cirurgias nas quais são realizadas anastomoses (conexões) de segmentos intestinais. A diálise peritoneal (um tratamento para a insuficiênciarenal) freqüentemente causa peritonite. A causa usual é uma infecção que penetra no peritôneo pelos drenos colocados no abdômen. A peritonite também pode ser decorrente de irritação sem qualquer infecção. Por exemplo, a inflamação do pâncreas (pancreatite aguda) pode causar peritonite. Além disso, o talco ou o amido presente nas luvas de um cirurgião pode causar peritonite sem infecção.

Sintomas

Os sintomas da peritonite dependem parcialmente do tipo e da extensão da infecção. Normalmente, o indivíduo apresenta vômito, febre elevada e um abdômen doloroso. Pode ocorrera formação de um ou mais abcessos e a infecção tende a deixar cicatrizes sob a forma de faixasde tecido (aderências) que podem terminar produzindo uma obstrução intestinal.

A menos que a peritonite seja tratada imediatamente, as complicações ocorrem rapidamente. Operistaltismo desaparece e ocorre retenção de líquidono intestino delgado e no intestino grosso. Além disso, ocorre exsudação de líquido da corrente sangüínea para o interior da cavidade abdominal. O indivíduo apresenta uma desidratação grave e perda de eletrólitos da corrente sangüínea. A seguir, ele apresenta complicações graves como, por exemplo, a insuficiência pulmonar, renal ou hepática, e a coagulação intravascular disseminada.

Diagnóstico

O diagnóstico rápido é fundamental. As radiografias são realizadas com o paciente em pé e deitado. deitado. As radiografias podem revelar a presença de gás livre na cavidade abdominal, o que indica a existência de uma perfuração. Ocasionalmente, é realizada a punção abdominal com agulha para retirada de líquido da cavidade. A seguir, o líquido é enviado ao laboratório para identificação dos microrganismos infecciosos e a realização de uma ntibiograma (para testar a sensibilidade dos microrganismos a vários antibióticos). No entanto, a laparotomia exploradora (cirurgia exploradora) é o método diagnóstico mais confiável.

Tratamento

Geralmente, a primeira medida a ser tomada é al aparotomia exploradora de emergência, sobre tudo quando o diagnóstico provável parece ser uma apendicite, uma úlcera péptica perfurada ou uma diverticulite. No caso de um episódio de pancreatite aguda (inflamação do pâncreas) ou de uma do ençainflamatória pélvica em mulheres, raramente é realizada uma cirurgia de emergência.

A antibioticoterapia é instituída imediatamente e, freqüentemente, são administrados vários antibióticos ao mesmo tempo. Além disso, pode ser realizada a passagem de uma sonda na sogástricaou nasoentérica para a aspiração de líquido e gás. Líquidos e eletrólitos também devem ser administrados por via intravenosa para a reposição da perda líquida e de eletrólitos.

fonte: Manual Merck