ENFERMAGE, CIÊNCIAS E SAÚDE

Gerson de Souza Santos - Bacharel em Enfermagem, Especialista em Saúde da Família, Mestrado em Enfermagem , Doutor em Ciências da Saúde - Escola Paulista de Enfermagem - Universidade Federal de São Paulo.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Abcessos



Um abcesso é um acúmulo de pus causado por uma infecção bacteriana. Quando as bactérias invadem um tecido sadio, a infecção dissemina-se por toda a área. Algumas células morrem e desintegram-se, deixando espaços nos quais ocorre um acúmulo de líquido e de células infectadas. Os leucócitos (glóbulos brancos), os defensores do organismo contra as infecções, deslocam-se até esses espaços e, após fagocitarem (ingerirem) as bactérias, eles morrem. Os leucócitos mortos acumulam- se sob a forma de pus, uma substância cremosa que preenche a área.

À medida que ocorre acúmulo de pus, o tecido sadio é deslocado. Finalmente, ocorre crescimento de tecido em torno do abcesso, envolvendo a lesão. Tratase de uma tentativa do organismo de impedir uma maior disseminação da infecção. Quando ocorre uma ruptura interna do abcesso, a infecção pode disseminar-se tanto para o interior do corpo quanto para a região subcutânea, dependendo da localização do abcesso. Uma infecção bacteriana pode acarretar a formação de um abcesso de várias maneiras.

Por exemplo, uma ferida puntiforme causada por uma agulha contaminada pode introduzir bactérias no tecido subcutâneo. Ou as bactérias podem disseminar-se a partir de uma infecção localizada em qualquer outra parte do corpo. Além disso, algumas vezes, as bactérias que vivem normalmente no organismo e não são nocivas podem causar a formação de um abcesso.

As chances de formação de um abcesso aumentam quando há sujeira ou um corpo estranho na área infectada, quando a área da invasão bacteriana apresenta um mau suprimento sangüíneo (como ocorre no diabetes) ou quando o sistema imune encontra-se comprometido (como na AIDS). Os abcessos podem ocorrer em qualquer parte do corpo, incluindo os pulmões, a boca, o reto e os músculos. Os abcessos são muito comuns na pele ou nos tecidos subcutâneos, sobretudo na face.

Sintomas e Diagnóstico

A localização do abcesso e a sua interferência sobre a função de um órgão ou de um nervo determinam os sintomas. Os sintomas podem incluir a dor, a sensibilidade à palpação, o calor, o edema, a hiperemia (rubor) e, às vezes, a febre. Um abcesso que se forma logo abaixo da pele geralmente manifesta-se como uma protuberância visível.

Quando está prestes a romper, o abcesso apresenta um um centro esbranquiçado, pois a pele suprajacente torna-se cada vez mais delgada. Um abcesso situado profundamente no interior do corpo freqüentemente cresce consideravelmente antes de produzir sintomas. Quando não detectado, um abcesso profundo pode disseminar a infecção por todo o corpo. O médico pode facilmente identificar um abcesso cutâneo ou subcutâneo, mas, freqüentemente, ele não consegue detectar um abcesso profundo.

Quando um indivíduo apresenta este tipo de abcesso, os exames de sangue freqüentemente revelam um número anormalmente elevado de leucócitos. Para se determinar o tamanho e a localização de um abcesso, podem ser utilizadas radiografias, a tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM). Como os abcessos e os tumores freqüentemente causam os mesmos sintomas e produzem imagens parecidas, um diagnóstico definitivo algumas vezes exige a coleta de uma amostra de pus ou a remoção cirúrgica do abcesso para que este seja examinado ao microscópio.

Tratamento

Normalmente um abcesso sara sem tratamento através da ruptura e da drenagem (eliminação) de seu conteúdo. Ocasionalmente, à medida que o organismo elimina a infecção e absorve os resíduos, o abcesso desaparece lentamente sem ruptura. O abcesso pode dar lugar a um nódulo duro. Um abcesso pode ser perfurado e drenado para aliviar a dor e promover a cura. Para drenar um abcesso grande, o médico deve romper suas paredes e liberar o pus.

Quando drenados, os abcessos grandes deixam amplo espaço vazio (espaço morto), o qual pode ser tamponado temporariamente com uma gaze. Algumas vezes, é necessária a manutenção de drenos artificiais temporários (geralmente, tubos plásticos finos). Como os abcessos não recebem sangue, os antibióticos comumente não são úteis. Após a drenagem do abcesso, podem ser prescritos antibióticos para a prevenção de recorrências. Os antibióticos também são utilizados quando um abcesso dissemina a infecção para outras partes do corpo. Uma análise laboratorial das bactérias presentes no pus ajuda o médico a selecionar o antibiótico mais eficaz.

Abcessos Abdominais

Os abcessos podem formar-se abaixo do diafragma, na parte média do abdômen, na pelve ou atrás da cavidade abdominal. Os abcessos também podem se formar em qualquer órgão abdominal (p.ex., rins, baço, pâncreas, fígado ou próstata) ou ao redor do mesmo. Freqüentemente, os abcessos abdominais são causados por uma lesão, uma infecção ou uma perfuração intestinal ou por uma infecção de um outro órgão abdominal.

Um abcesso abaixo do diafragma pode formar-se quando o líquido infectado (p.ex., de um apêndice perfurado) é deslocado para cima devido à pressão dos órgãos abdominais e ao vácuo criado quando o diafragma movimenta-se durante a respiração. Os sintomas podem incluir a tosse, a respiração dolorosa e dor em um ombro (um exemplo de dor referida que ocorre porque o ombro e o diafragma são inervados pelos mesmos nervos e o cérebro interpreta erroneamente a origem da dor).

Os abcessos localizados na parte média do abdômen podem ser decorrentes de uma ruptura de apêndice, de uma perfuração do intestino grosso, de uma doença intestinal inflamatória ou de uma diverticulose. Normalmente, o abdômen é doloroso na área do abcesso.

Os abcessos pélvicos são decorrentes dos mesmos distúrbios que causam os abcessos localizados na parte média do abdômen e de infecções ginecológicas. Os sintomas podem incluir a dor abdominal, a diarréia decorrente de irritação intestinal e a necessidade urgente ou freqüente de urinar devido à irritação da bexiga.

Os abcessos localizados atrás da cavidade abdominal (denominados abcessos retroperitoneais) localizam-se atrás do peritôneo, a membrana que reveste a cavidade e os órgãos abdominais. As causas, as quais são similares àquelas de outros abcessos abdominais, incluem a apendicite (inflamação do apêndice) e a pancreatite (inflamação do pâncreas). A dor, geralmente na região lombar, piora quando o indivíduo flexiona o membro inferior sobre o quadril.

Os abcessos renais são causados por bactérias oriundas de uma infecção que se disseminou aos rins através da corrente sangüínea ou por uma infecção do trato urinário que se propagou ao rim e, em seguida, se disseminou ao tecido renal. Os abcessos localizados sobre a superfície dos rins (abcessos peri-renais) são quase sempre causados pela ruptura de um abcesso localizado no interior do rim, o qual dissemina a infecção para a superfície e para o tecido circunvizinho.

Os sintomas de um abcesso renal incluem a febre, calafrios e dor na região lombar. A micção pode ser dolorosa e, algumas vezes, a urina torna-se sanguinolenta. Os abcessos do baço são causados por uma infecção que se dissemina através da corrente sangüínea até o baço, por uma lesão do baço ou pela disseminação de uma infecção a partir de um abcesso próximo (p.ex., um abcesso localizado abaixo do diafragma). A dor pode ocorrer no lado esquerdo do abdômen, nas costas ou no ombro esquerdo.

Os abcessos localizados no interior do pâncreas comumente formam-se após um episódio de pancreatite aguda. Freqüentemente, os sintomas (febre, dor abdominal, náusea e vômito) surgem uma semana ou mais após o indivíduo se recuperar de uma pancreatite. Os abcessos hepáticos podem ser causados por bactérias ou por amebas (parasitas unicelulares). As amebas oriundas de uma infecção intestinal atingem o fígado através dos vasos linfáticos.

As bactérias podem chegar ao fígado provenientes de uma vesícula biliar infectada; de uma ferida penetrante ou fechada; de uma infecção abdominal (p.ex., um abcesso próximo) ou de uma infecção transportada através da corrente sangüínea e originária em qualquer outra região do corpo. Os sintomas de abcessos hepáticos incluem a perda de apetite, a náusea e a febre.

O indivíduo pode ou não apresentar dor abdominal. Os abcessos prostáticos geralmente são decorrentes de uma infecção do trato urinário que acarretou uma prostatite (infecção da próstata). Esses abcessos ocorrem mais comumente nos homens com idade entre 40 e 60 anos. Tipicamente, um indivíduo com um abcesso prostático apresenta micção dolorosa, freqüente ou difícil. Menos comumente, ele sente dor interna na base do pênis e observa a presença de pus ou de sangue na urina.

Diagnóstico e Tratamento

Em quase todos os casos de abcessos abdominais, o pus deve ser drenado, seja através de uma cirurgia ou de uma punção com agulha através da pele. Para orientação do posicionamento da agulha, o médico utiliza a tomografia computadorizada (TC) ou a ultra-sonografia. A análise laboratorial do pus identifica o microrganismo infectante, permitindo selecionar o antibiótico mais eficaz.

Abcessos na Cabeça e no Pescoço

Os abcessos comumente desenvolvem-se na cabeça e no pescoço, sobretudo atrás da garganta e nas glândulas salivares das bochechas (glândulas parótidas). Também pode ocorrer a formação de abcessos no cérebro. Os abcessos localizados atrás e lateralmente à garganta (abcessos faringomaxilares) normalmente são decorrentes de infecções da garganta (p.ex., infecções das tonsilas ou das adenóides).

As crianças apresentam uma maior probabilidade de abcesso de garganta que os adultos. Também pode ocorrer a formação de um abcesso no interior de um linfonodo localizado lateralmente à garganta (abcesso parafaríngeo). Menos comumente, a origem desses abcessos é uma infecção próxima (p.ex., um abcesso dental ou uma infecção de uma glândula salivar). Juntamente com a febre e a dor de garganta, o indivíduo sente- se doente. Abrir a boca pode ser difícil.

A infecção pode disseminar, produzindo edema do pescoço. Quando o abcesso lesa as artérias carótidas ao nível do pescoço, pode ocorrer uma coagulação ou um sangramento maciço. Também pode ocorrer a formação de um abcesso na saída de uma das glândulas parótidas. Normalmente, o abcesso é causado pela disseminação de uma infecção originária da boca. Este tipo de abcesso costuma ocorrer em indivíduos idosos ou com doença crônica, os quais apresentam boca seca devido à pouca ingestão de líquidos ou ao uso de certas drogas (p.ex., antihistamínicos). Os sintomas incluem a dor e o aumento de volume de uma bocheça, a febre e os calafrios que começam subitamente.

Abcessos Musculares

Ocasionalmente, ocorre a formação de abcessos profundos nos músculos. Eles podem ser causados por bactérias que se disseminaram de uma infecção próxima de um osso ou de um outro tecido ou por bactérias que se disseminaram através da corrente sangüínea a partir de um local distante do corpo. A piomiosite é um distúrbio no qual o músculo torna-se infectado por bactérias piogênicas (produtoras de pus) que freqüentemente causam a formação de abcessos.

A piomiosite é mais comum entre os habitantes de regiões tropicais e ocorre em indivíduos com comprometimento do sistema imune. Os músculos mais comumente afetados são os das coxas, das nádegas, dos braços e aqueles localizados em torno dos ombros. Os sintomas incluem uma dor tipo câimbra acompanhada por edema, febre discreta e um desconforto progressivo, especialmente durante a movimentação do músculo infectado.

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Abcessos da Mão

Os abcessos da mão são bastante comuns e, geralmente, são devidos a uma lesão. Um abcesso localizado na polpa digital é quase sempre resultado de uma lesão menor (p.ex., perfuração causada por um espinho ou por uma agulha). Na área do abcesso, o indivíduo apresenta dor intensa, calor e hiperemia, freqüentemente com aumento de volume dos linfonodos próximos do membro superior. A infecção do osso subjacente pode provocar uma dor mais intensa.

Os abcessos podem formar-se em torno dos tendões que percorrem a face medial dos dedos. Este tipo de abcesso é causado por uma lesão que penetra em uma das pregas existentes na face palmar do dedo. A infecção e o pus formam-se em torno do tendão e destroem rapidamente o tecido. O mecanismo de deslizamento do tendão torna-se lesado e, conseqüentemente, o dedo praticamente não consegue ser movido. Os sintomas incluem o edema e a inflamação do dedo, a sensibilidade à palpação da bainha do tendão e uma dor extrema quando o indivíduo movimentá-lo. A presença de linfonodos nas proximidades do abcesso e a febre são comuns.