ENFERMAGE, CIÊNCIAS E SAÚDE

Gerson de Souza Santos - Bacharel em Enfermagem, Especialista em Saúde da Família, Mestrado em Enfermagem , Doutor em Ciências da Saúde - Escola Paulista de Enfermagem - Universidade Federal de São Paulo.

http://pt.slideshare.net/gersonsouza2016

PESQUISE AQUI

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ÁLCOOL E REDUÇÃO DE DANOS


O álcool é a droga psicoativa mais usada na maioria dos países, tanto para a celebração como para o sofrimento, pois libera as inibições. As pessoas consomem álcool para relaxar e se divertir. Para muitos, o álcool é uma companhia nos eventos sociais e, na maior parte das vezes, o consumo de álcool implica riscos relativamente baixos, tanto para quem bebe como para terceiros.
Mas há um outro lado do uso de álcool. Ele é responsável por muitos danos nas esferas sociais e individuais. Depois do tabaco, o álcool é a segunda maior causa de mortes relacionadas a drogas. Na maioria dos países, o álcool tem um impacto ainda maior em termos de mortes, ferimentos e custos econômicos se comparado com as drogas ilícitas. O álcool tem impactos em qualquer estágio de doença, em todos os grupos etários, de maneira direta e indireta. Toda política abrangente e significativa de saúde pública deve ter como prioridade maior a mudança das quantidades de álcool consumidas, dos padrões de consumo e dos danos subseqüentes. Algumas considerações preliminares
Para a maioria das pessoas de países onde o consumo de álcool é comum e lícito, o álcool é uma substância socialmente aceita. Até recentemente, muitas pessoas falavam de álcool e de outras drogas com a sugestão implícita de que o álcool era diferente das “outras drogas”.
Além disso, o fato de o consumo de álcool ser legal na maioria dos países significa que, de certa forma, ele é mais seguro que as outras drogas. Porém, legalidade não confere segurança.
É dever da comunidade entender o impacto do álcool além das consequências de acidentes de carros ou de reportagens que ocasionalmente saem na mídia sobre violência causada por álcool. Drogas como heroína e ecstasy são providas naturalmente de características e potenciais negativos muito maiores que os do álcool.
Então, quais são os danos provocados pelo consumo de álcool?
É importante iniciar com uma visão geral. Os danos e problemas a curto prazo do consumo de álcool são geralmente acidentes de carro traumáticos, violências e agressões, atividade sexual não planejada ou não desejada, conflitos com a lei ou com o patrão. Mortes acidentais, como afogamento, são freqüentemente associadas ao consumo de álcool. Em algumas comunidades, onde há uma grande produção de álcool ilicitamente, o envenenamento pode ser uma ocorrência comum. Geralmente, esses episódios são resultados de exagero de consumo ou de compulsão à bebida. Os danos a longo prazo são resultados de consumo pesado (ou de alto risco) por um período maior de tempo. Danos a órgãos físicos (coração, fígado), perda de relacionamentos pessoais ou de emprego ou problemas financeiros podem surgir a partir do consumo exagerado e prejudicial de álcool.
Respondendo às conseqüências do consumo de álcool
A resposta tradicional ao uso/abuso de álcool tem sido baseada no paradigma demanda/oferta. A maioria das sociedades possui restrições sobre a produção, venda e publicidade de álcool. No entanto, em muitas comunidades onde a produção ilícita de álcool é comum, as sanções do governo são, obviamente, ineficazes. Os detalhes de leis específicas variam de país para país ou de região para região; porém o controle sobre a oferta pode ser um importante passo no controle do consumo de álcool. Modificar a demanda de álcool através de programas comunitários ou escolares também é uma boa estratégia. No que diz respeito à redução de consumo, elas têm pouco impacto. Da mesma forma, a taxação e o aumento dos preços pode alterar os padrões de consumo. Existem sólidas evidências de que a redução do consumo pode reduz os problemas associados.
Contudo, existem limitações importantes no contexto e no impacto do modelo demanda/oferta e é aí que a abordagem de redução de danos pode desempenhar um papel importante e complementar. Antes de qualquer comentário sobre o papel da redução de danos como estratégia complementar no controle de problemas relacionados ao álcool, é necessário definir as expressões usadas.
A definição operacional de redução de danos
A Associação Internacional de Redução de Danos (IHRA) define redução de danos como “políticas e programas que tentam principalmente reduzir, para os usuários de drogas, suas famílias e comunidades, as conseqüências negativas relacionadas à saúde, a aspectos sociais e econômicos decorrentes de substâncias que alteram o temperamento” (ver Policy Papers em www.ihra.net). Esta é a definição mais sucinta e útil. Seu foco é no trato das conseqüências do uso de drogas em vez de enfatizar apenas a redução do consumo de uma determinada droga. Ela pode ser aplicada tanto para drogas lícitas como ilícitas. Da mesma forma, também pode se aplicar à produção legal e clandestina de álcool.
Dois comentários são pertinentes à definição. Primeiro, ela não incentiva nem fecha os olhos para o uso de drogas, pois reconhece que existem danos e conseqüências envolvidas. Segundo, a redução de riscos, como definida acima, não rejeita a abstinência. De fato, algumas pessoas defendem que a maneira mais eficiente de reduzir os danos é, em primeiro lugar, não usar drogas.
Embora práticas e políticas de redução de danos venham sendo implementadas há anos, talvez com outro nome, foi a epidemia de aids que convergiu as áreas médicas e de saúde pública a reagir a uma ameaça global de forma específica e pragmática. A abstinência sexual e a interrupção do uso de drogas injetáveis não passavam pela cabeça das pessoas, por isso uma série de estratégias realistas e pragmáticas foi implementada. Essas características – realismo e pragmatismo – são o espírito da redução de danos.
Em países cuja reação à epidemia de aids foi relativamente eficaz, as políticas eram direcionadas tanto às conseqüências de determinados comportamentos quanto à mudança ou eliminação dos próprios comportamentos.
Redução de danos é uma estratégia cotidiana
Antes de analisar a aplicação da estratégia de redução de danos para o consumo de álcool, vale salientar que todos nós aplicamos os princípios da redução de danos na vida cotidiana. Um exemplo clássico é o da segurança nas estradas. Cintos de segurança, barreiras protetoras nas estradas e “zonas de impacto” na frente dos carros reduzem a possibilidade de ferimentos em um acidente. As pessoas ainda dirigirão os carros – algumas vão dirigir perigosamente, à despeito das leis de trânsito – porém, as possibilidades de danos serão reduzidas.
Beber água é necessário para a existência humana, mas em alguns lugares do mundo este é um comportamento de risco. Por isso se ferve a água para reduzir a contaminação ou bebe-se água engarrafada. O mesmo se aplica a andar de skate – um esporte potencialmente perigoso para os jovens. Ainda assim, eles procuram a adrenalina, mas se protegem com joelheiras e cotoveleiras, capacetes e outros equipamentos de segurança para reduzir os danos. A lista das atividades cotidianas que envolvem os princípios da redução de danos é infinita.
Redução de danos e álcool
A política da IHRA, mencionada anteriormente, é um bom ponto de partida. “A redução de riscos tem um longo e distinto registro de políticas de controle de álcool. Tentativas para reduzir diretamente os problemas relacionados ao álcool sem necessariamente reduzir o consumo são complementares, e não concorrentes, das estratégias conhecidas de demanda e oferta”.
Embora a redução de danos tenha sido tradicionalmente identificada com as drogas ilícitas, ela também se aplica ao álcool e a outras substâncias, como o tabaco. Considerando que o consumo de álcool irá continuar, e que o abuso de álcool também, os princípios e estratégias de redução de danos são lógicos e comprovadamente eficientes. Os elementos-chave da redução de danos são universais. Tais elementos, ou características, devem permear as estratégias de políticas ou intervenções de saúde pública que buscam aplicar os princípios de redução de danos. Esses elementos são:
• A estratégia de redução de danos é complementar às estratégias de controle da demanda e da oferta;
• Seu foco é nas conseqüências e não nos comportamentos em si;
• A estratégia é realista e reconhece que o consumo de álcool não será interrompido em muitas comunidades, e continuará a criar problemas para indivíduos e comunidades;
• A estratégia de redução de danos não julga o consumo de álcool e sim a redução dos problemas advindos dele;
• É uma estratégia pragmática – ela não busca políticas ou estratégias que sejam inatingíveis ou que criem mais danos que benefícios.
A estratégia de redução de danos reconhece os direitos humanos individuais – ela está calcada na aceitação da integridade e responsabilidade individuais.
Redução de danos e álcool: estratégia na prática
A substância
A produção de produtos com baixo teor alcoólico e sua disponibilidade imediata são opções. Muitas pessoas escolhem esses produtos para que possam continuar consumindo álcool, com uma possibilidade menor de embriaguez, doenças e riscos.
No entanto, existem desafios reais. Para muitos, e especialmente para os jovens, as bebidas de baixo teor alcoólico são uma afronta à sua masculinidade. É necessário mudar tal cultura e esse é um exercício de longo prazo, que inclui uma mudança na forma como o álcool é promovido, assim como uma mudança nas concepções aceitas pela comunidade.
Em alguns países, aditivos como tiamina (vitamina B) são adicionados ao produto e está comprovado que em alguns casos, os riscos à saúde são realmente reduzidos.
O ambiente
O ambiente onde se bebe deve ser mais seguro para que aqueles que optarem por consumir álcool possam fazê-lo com relativa segurança, o que também afetará quem não bebe – um ambiente mais seguro é a garantia de que eles não serão vítimas de danos. Estudos sugerem que bares barulhentos, lotados e inacessíveis criam problemas. Estabelecimentos que toleram a embriaguez e permitem que os funcionários do bar sirvam pessoas já embriagadas são propícios para problemas.
A ligação do álcool com a violência também está documentada. O álcool é servido em copos de vidro; os estabelecimentos comerciais poderiam servir as bebidas em copos de plástico ou de material mais resistente. Assim, o perigo de um copo quebrado ser usado como arma é eliminado, bem como a chance de que ocorra um acidente com cacos de vidro.
Muitos estabelecimentos de jogos, embora sirvam bebida alcóolica, criaram “áreas secas”, ou seja, áreas onde não é permitido o consumo de álcool. Este pode ser comprado no local, os gerentes só podem servir bebidas com baixo teor alcoólico, excluindo os destilados, ou então permitir a compra de apenas uma bebida por vez.
A atividade
Beber é geralmente uma atividade social realizada em grupos. Se o álcool é o ponto focal dessa atividade, ele pode criar problemas. Porém, se tal “atividade” também envolve comer e dançar, ou jogar sinuca, é provável que o álcool seja menos relevante e assim alguns problemas possam ser evitados.
Uma estratégia muito prática seria o consumidor planejar o seu nível de gastos antes de começar a beber – a maioria das pessoas consegue fazer isso.
Planejamento para beber
Uma das manifestações mais óbvias do uso excessivo de álcool são os acidentes, geralmente de carro. A maioria das pessoas sabe quando vai beber. O planejamento feito com antecedência é uma medida sensível e eficiente de redução de danos. Além do estabelecimento de limites para a bebida, outros planos podem evitar problemas relacionados ao álcool: não beber sozinho; garantir carona com um motorista que não tenha bebido; estabelecer um limite de gastos; saber o que está sendo servido (se a bebida está misturada ou não); e não aceitar bebidas de estranhos.
O conhecimento de quem bebe
A disseminação de informações sobre o álcool e a educação do público são promovidas como estratégias eficientes de prevenção há décadas. No entanto, seu impacto sobre o comportamento ainda é discutível. A hipótese de que a educação escolar sobre o álcool poderia afetar o hábito de beber (em anos futuros) é comprovadamente irreal.
Contudo, é razoável presumir a utilidade de se conhecer os efeitos do álcool no corpo e no comportamento humanos; assim, quem decidir beber estará, de alguma maneira, ciente dos problemas que poderão surgir, o que não significa que irão mudar seu comportamento, ou mesmo reduzir os problemas mas para algumas pessoas este será o resultado.
A divulgação de informações sobre como “manejar” o próprio consumo de álcool e o de amigos é importante. Muitos jovens são inexperientes e estão sujeitos à forte pressão dos colegas para assumir os “riscos da adolescência”. Kits de primeiros socorros são ferramentas pragmáticas que podem ser úteis entre amigos que bebem.
Vários fatores afetam a saúde, mas apenas problemas genéticos e malformações estão além do nosso controle. A maioria dos fatores que influencia a saúde pode ser controlada e ajustada. Obviamente, isso depende do conhecimento, da consciência e da maturidade, assim como das condições de vida de uma pessoa. As pessoas nem sempre pensaram assim; tal abordagem e compreensão da própria saúde são resultados do desenvolvimento da civilização, da consciência a respeito da saúde popular e do progresso da pesquisa médica.
A presença de álcool na cultura e os comportamentos habituais das pessoas em muitos países confere à substância justa cidadania. Apesar dos efeitos prejudiciais do abuso do álcool, é difícil imaginar sua total ausência em nossa vida. No entanto, alguns círculos de defensores antiálcool identificam qualquer uso de álcool como alcoolismo (ou alcoo-lismo em potencial). Essa abordagem, observada em vários países do Leste Europeu, é irreal e ineficiente. Ainda mais quando médicos e pesquisadores já afirmaram repetidas vezes que o uso moderado de álcool por adultos saudáveis pode contribuir para o bem-estar e a boa saúde, até mesmo na prevenção de várias doenças.
Grupos de alto risco
A discussão a respeito dos efeitos danosos do álcool sobre a saúde enfatiza quatro categorias de potenciais consumidores para qualquer quantidade de uso de álcool, mesmo que moderado e esporádico.
As crianças e os jovens que não atingiram maturidade física completa sofrerão uma sucessão de efeitos prejudiciais se consumirem álcool. Consumido com regularidade, o álcool pode obstruir o desenvolvimento emocional e psicológico e contribuir para uma variedade de doenças do sistema nervoso central, podendo também prejudicar a função vital de órgãos internos.
As pesquisas revelam que os efeitos do álcool consumido por gestantes ou lactantes (mesmo que em doses moderadas) podem ser percebidos no desenvolvimento de fetos e no comportamento dos bebês. Duas doenças sérias – a síndrome alcoólica fetal e o efeito fetal do álcool – foram identificadas como conseqüências diretas do uso do álcool na gravidez.
Pacientes tratados por doenças que requerem a contra-indicação do consumo do álcool (diabetes, doenças tratadas com medicação psicotrópica, doenças do fígado e do pâncreas, inflamação da mucosa, doenças da laringe, traquéia e brônquios e doenças do sistema imunológico, etc.) fazem parte de uma categoria que também inclui um grupo muito específico: os alcoolistas em recuperação, cujas recaídas requerem abstinência total.
A quarta categoria inclui as pessoas que consomem álcool moderadamente, mas não em situações específicas. As situações que exigem abstinência total de álcool referem-se às atividades em que seja necessário dirigir ou operar máquinas industriais ou técnicas.
Danos decorrentes do consumo de álcool
A Organização Mundial da Saúde recomenda a substituição do termo “alcoolismo” por “síndrome da dependência de álcool” ou “dependência de em álcool” (estatísticas no F10.2; ICD 10) e “consumo prejudicial de álcool” (no F10.1).
O termo “consumo prejudicial” abarca os conceitos usados hoje, como “abuso de álcool”, “uso prejudicial de álcool” ou “problemas relacionados ao álcool”.
O consumo prejudicial pode resultar em uma série de complicações, como: • Problemas de saúde: surgimento e/ou agravamento de doenças e maior incidência de traumatismos e/ou ferimentos;
• Problemas psicológicos e psiquiátricos, que incluem agressividade, depressão, doenças de ansiedade e crises psicóticas relacionadas ao álcool;
• Problemas sociais e interpessoais:
o conflitos familiares relacionados com violência doméstica, resultados de uma variedade de efeitos físicos e /ou psicológicos traumáticos, tanto a curto quanto a longo prazo entre os membros da família do consumidor irresponsável;
o fim da harmonia entre os vizinhos;
o problemas no ambiente de trabalho (e também acidentes);
• Conflitos com a lei, como dirigir embriagado, crimes violentos cometidos após ou durante o consumo de álcool, delitos relacionados a comportamentos agressivos ou anti-sociais conseqüentes do abuso de álcool.
Vale mencionar que não são apenas as duas primeiras categorias que incluem danos à saúde relacionados ao álcool. Danos “sociais” e “conflitos com a lei” também incluem efeitos que podem, direta ou indiretamente, causar problemas físicos e/ou psicológicos de saúde (principalmente para terceiros). O consumo prejudicial de álcool por um funcionário pode levar a acidentes, causando danos aos colegas de trabalho e ao ambiente em si. Longos conflitos interpessoais, comuns para quem bebe exageradamente, podem afetar o bem-estar e a atmosfera geral do ambiente de trabalho.
Os danos listados na categoria “conflitos com a lei” geralmente causam problemas concretos de saúde, como nos casos em que o álcool é considerado um fator dos crimes violentos.
Portanto, a discussão sobre danos à saúde causados pelo “consumo prejudicial” deve considerar o danos em um contexto mais amplo, e não só considerar os efeitos do etanol em determinados órgãos ou sistemas internos de quem bebe.
Efeitos do álcool
Fígado
O fígado reage relativamente rápido ao consumo de álcool e é propenso aos seus danos. A patogênese dos problemas relacionados ao álcool tem sido pesquisada em detalhes; sabemos que os danos mais perigosos podem incluir degeneração do fígado, hepatite e cirrose. A cirrose é uma doença progressiva, irreversível e fatal. Mulheres que bebem são mais propensas a essa doença do que os homens.
Sistema digestivo
O consumo prolongado de álcool pode irritar a mucosa e, conseqüentemente, causar inflamação do esôfago. A relevância do álcool no desenvolvimento de câncer do esôfago ainda é desconhecida. A cirrose pode causar varizes no esôfago (quase sempre seguidas de hemorragias fatais). Também é comprovado que o consumo do álcool é um fator importante que contribui para úlceras gástricas, câncer de colón, pancreatite e, conseqüentemente, propicia um risco maior de hipoglicemia e diabetes.
Deficiências nutricionais
Os mecanismos de deficiências nutricionais em consumidores exagerados de álcool são complexos e pouco conhecidos. Vale mencionar o fato de que o álcool, como uma substância altamente energética, sacia a demanda urgente de calorias do corpo, saciando a fome. Tal fenômeno, combinado com a menor absorção e disfunção do canal alimentar, pode contribuir para uma deficiência de vitaminas, de absorção de proteínas, de zinco e de outras substâncias nutricionais.
O consumo exagerado de álcool causa deficiências graves de vitamina B1, ácido fólico e vitamina A.
Sistema circulatório
O álcool afeta os mecanismos que regulam a pressão sangüínea. É sabido que quanto maior a quantidade de álcool ingerida, maior a propensão ao aumento de pressão arterial. O consumo exagerado aumenta o risco de anemia.
Geralmente, diz-se que o álcool pode ter um efeito benéfico na prevenção de doenças coronárias; porém, aqueles que insistem nessa afirmação são os próprios consumidores compulsivos de álcool.
Sistema endócrino
O consumo pesado de bebidas alcoólicas pode causar uma série de doenças hormonais, inclusive secreção anormal de testosterona e luteotropina, assim como uma diminuição na motilidade dos espermatozóides e prejuízos em sua estrutura. Homens que consomem álcool podem sofrer efeminação (crescimento de glândulas mamárias, atrofia do testículo, anormalidades no crescimento dos pêlos, perda de barba, etc.). As mulheres podem sofrer atrofia do ovário e masculinização (pêlos no rosto, voz grossa, etc.). Essas mudanças podem vir acompanhadas de diminuição da libido, irregularidades no ciclo menstrual, esterilidade e menopausa prematura. O álcool também afeta o funcionamento da tireóide e das glândulas supra-renais.
Disfunção sexual
Apesar da noção popular de que o álcool é benéfico e estimula o desempenho sexual, os fatos provam o contrário. O álcool desinibe (diminui a timidez) e pode estimular a libido. No entanto, o uso pesado de álcool por muito tempo pode causar impotência. Altas concentrações de álcool no sangue causam disfunção erétil, ejaculação tardia e orgasmo brando. Muitas mulheres que bebem sofrem de perda de libido, pouca lubrificação vaginal e ovulação irregular.
Sistema imunológico
O consumo prolongado de álcool retarda as funções do sistema imunológico, que resulta em uma maior propensão para doenças infecciosas, pneumonia, tuberculose, e mesmo câncer. O álcool afeta a atividade dos linfócitos na produção de anticorpos e diminui sua atividade. Pode-se dizer que o consumo intenso de álcool afeta, de forma irreversível, todas as funções do sistema imunológico.
Problemas de pele e doenças sexualmente transmissíveis
Problemas de pele (rachaduras, coceiras, hipercromatismo, etc.) são conseqüências diretas ou indiretas dos efeitos do álcool no fígado e em outros órgãos do sistema digestivo. Pesquisas confirmam que a população que bebe tem uma tendência 5 vezes maior de ter doenças venéreas do que os abstêmios; a proporção entre mulheres é de 29 vezes. O abuso do uso de álcool também é responsável pelo maior risco de infecção por HIV (e, por conta do fraco sistema imunológico, também é maior a incidência de todos os sintomas de aids).
Câncer
O papel oncológico do álcool é um dos assuntos mais estudados por pesquisadores. Provavelmente, devido à inquestionável significância do álcool como fator contribuinte de tantas doenças e enfermidades, pode-se deduzir que o álcool desempenha um papel importante no desenvolvimento de certas formas de câncer, especialmente de fígado, estômago, laringe, esôfago, traquéia, colón e próstata.
Tem-se observado câncer de mama entre mulheres que bebem com maior freqüência que entre as mulheres que não bebem; este fato pode ser atribuído ao efeito danoso do álcool no sistema imunológico, e não pela influência direta do álcool sobre o órgão.
Gravidez e feto
É comprovado que após 40-60 minutos da ingestão de álcool por uma gestante, a concentração de álcool no sangue fetal fica equivalente à concentração de álcool no sangue da mãe. Como o álcool intoxica principalmente organismos muito jovens, mulheres que bebem durante a gravidez têm uma incidência maior de parto prematuro, parto acelerado ou abortos retidos e abortos espontâneos.
Recém-nascidos de mães que consumiram álcool durante a gravidez podem apresentar sintomas leves a severos de abstinência (tremores, tensão muscular, fraqueza, problemas de sono, choro, dificuldade de sugar, etc.). Outros problemas podem incluir retardo no crescimento, dificuldades de concentração e atenção. As complicações mais sérias são decorrentes da síndrome alcoólica fetal (definida em 1968). Os sintomas incluem baixo peso, saúde instável, atraso no desenvolvimento e alta freqüência de doenças do desenvolvimento.
Problemas psiquiátricos e psicológicos
Quadros psicóticos agudos decorrentes do álcool (Delirium tremens, ilusões ou paranóias, doença de Korsakoff, etc.) aparecem quase sempre em alcoolistas crônicos e caracterizam-se pelo padrão mais destrutivo de consumo. As pessoas também podem sofrer de depressões crônicas.
Aqueles que abusam de álcool, mas não são dependentes, no entanto, podem encobrir, com a compulsão por bebida, algumas doenças psiquiátricas. O efeito prolongado de embriaguez no cérebro pode causar mudanças de personalidade, como a deterioração da vida emocional, perda de interesses, diminuição de motivação social, perda da capacidade de planejamento e organização, etc.
Obviamente, as mudanças negativas afetam a qualidade das relações interpessoais e o estilo de vida (familiar, conjugal, profissional) e podem diminuir significativamente a harmonia da família e do ambiente de trabalho.
Ferimentos
Pessoas que bebem têm mais tendência a ferimentos acidentais. A razão para isso é causada diretamente pelo álcool, que diminui a concentração, percepção e avaliação da situação. Pesquisas indicam uma correlação entre a bebida e vários tipos de acidentes traumáticos (mesmo fatais) causados por acidentes de carro, quedas, incêndios, afogamentos ou ferimentos (além de acidentes de trabalho).
Os ferimentos causados por álcool são considerados problemas médicos e sociais sérios, tanto em países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento. As estatísticas nos países ocidentais mostram que os ferimentos são a quarta causa de morte (depois de ataque cardíaco, derrames e câncer). Na população abaixo de 40 anos, ferimentos causados por álcool são a causa mais freqüente de morte.
Há 1.500 anos a.C. um escriba egípcio escreveu que o consumo não moderado de álcool poderia causar fraturas e outros ferimentos. Sabemos qual é a principal causa de ferimentos entre motoristas que bebem. Motoristas bêbados causam muito mais acidentes com morte que motoristas que não haviam bebido no momento do acidente.
Violência relacionada ao álcool
Os comportamentos agressivos têm muito a ver com o consumo exagerado de álcool. Este fato pode ser observado tanto em um ambiente criminal como nos lares. Não é fácil interpretar relevância das palavras “violência”, “agressão”, “crime”, principalmente se elas se referem à intenção de machucar outra pessoa. No entanto, muitos estudos indicam que o consumo de álcool pode provocar comportamentos violentos acima do que se considera acidental.
Outro fato importante que deve ser levado em consideração é a porcentagem de pessoas que abusam do álcool entre reincidentes na prisão (em todos os países onde se levantaram as estatísticas). É interessante notar que não só o agressor como também a vítima podem ter consumido álcool antes ou durante o crime. Também foi detectado álcool na maioria das investigações de casos de estupro violento e também em outros crimes sexuais.
Violência doméstica
Vários estudos demonstram que mais de 50% dos casos de espancamento de esposas têm relação direta com consumo de álcool pelo espancador. Uma análise dos casos investigados de abuso ou negligência de crianças no Canadá revelou que o agressor havia consumido álcool em 87% dos casos. Abusos sexuais e atos incestuosos contra crianças também foram comprovadamente cometidos sob a influência do álcool. Estudos e dados estatísticos destacam os efeitos físicos mais comuns do abuso do álcool. No entanto, problemas psicológicos e doenças pós-traumáticas não devem ser minimizados ou ignorados. Vítimas de um estilo de vida baseado na violência doméstica podem apresentar problemas de longo prazo ou até incuráveis como doenças de natureza afetiva, neurótica e de desenvolvimento.
Recomendações
• É necessário informar (permanentemente) aos potenciais consumidores de álcool sobre fatos reais baseados em pesquisas acerca dos efeitos nocivos do consumo irresponsável do álcool;
• O governo deve priorizar a educação das equipes médicas (clínicos gerais ou médicos de família, residentes, ginecologistas, equipe de emergência e enfermeiros) na área de prevenção e avaliação precoce dos danos causados pelo abuso ou uso prejudicial de álcool;
• Programas no ambiente de trabalho sobre prevenção de abuso de álcool devem ser implementados por todas as empresas com grande número de funcionários. Devem ser oferecidos treinamento a gerentes e supervisores visando o reconhecimento precoce de problemas com álcool;
• Motoristas embriagados envolvidos em acidentes devem receber, além das punições legais, a oportunidade de participar de programas de educação sobre os efeitos do álcool no corpo e na mente humanos;
• Criminosos violentos, inclusive agressores domésticos, devem receber educação especial (com a possibilidade de tratamento de vários níveis de alcoolismo no local de trabalho), em todos os casos onde o álcool tiver sido o fator contribuinte da violência;
• A publicidade de bebidas alcoólicas é considerada um fator importante que influencia os jovens a se tornarem consumidores em potencial. Ela deve ser fiscalizada e, conseqüentemente, obrigada a obedecer às regulamentações legais para reduzir eventuais danos.
As recomendações acima podem exigir novas regulamentações nas legislações criminais, de família, ambiente de trabalho e trânsito em alguns países. Talvez seja útil o estabelecimento de um Conselho, não governamental, de profissionais qualificados para trabalhar com os respectivos órgãos no sentido de propor e aplicar ações concretas que abordem os problemas, objetivando encontrar as maneiras mais eficientes de reduzir os danos decorrentes do uso e, principalmente, do abuso de álcool em nossas sociedades.

FONTE: http://portal.saude.gov.br/portal
Referências bibliográficas
ALCOHOL, infectious diseases and immunity. [NIAAA], Washington, DC, v. 16, n. 1, 1992.
CHEVILOTTE, G.; DURBEC, J. P.; GEROLAMI, A. et al. Interaction between hepatitis B virus and alcohol consumption in liver cirrhosis. An epidemiologic study. Gastroenterology, v. 85, n. 1, p. 141-145, 1983.
CHMIEL, J. S.; DETELS, R.; KASLOW, R. A. et al. The Multicenter AIDS cohort study group. Factors associated with prevalent human immunodeficiency virus (HIV) infection in the Multicenter AIDS cohort study. American Journal of Epidemiology, v. 126, n. 4, p. 568-577, 1987.
CROWE, L. C.; GEORGE, W. H. Alcohol and human sexuality: review and integration. Psychological Bulletin, v. 105, n. 3, p. 374-386, 1989.
GROSS, R. L.; NEWBERNE, P. M. Role of nutrition in immunologic function. Physiological Reviews, v. 60, n. 1, p. 188-302, 1980.
HABRAT, B. Organizm w niebezpieczenstwie. Warszawa, 1998.
HESSELBROCK, M. N.; MEYER, R. E.; KEENER, J. J. Psychopathology in hospitalized alcoholics. Archives of general Psychiatry, v. 342, n. 11, p. 1.050-1.055, 1985.
HONKANEN, R.; ERTAMA, L.; KUOSMANEN, P. et al. The role of alcohol in accidental falls. Journal of Studies on alcohol, v. 44, n. 2, p. 231-245, 1983.
JASTRUN, E. Alcohol, health e research world, polish. Warszawa, 2001.
KLATSKY, A. L.; FRIEDMAN G. D.; SIEGELAUB, A. B. Alcohol and mortality. A ten-year Kaiser-Permanente experience. Annals of Internal medicine, v. 95, n. 8, p. 139-145, 1981.

video